Lutero e seu pensamento

2011-06-07
Martinho Lutero nasceu aos 11/11/1483 em Eisleben (Turíngia), de pai mineiro um tanto rude e mãe austera. O ambiente de casa era severo; nele foi educado o menino até os doze anos de idade. A família era católica fervorosa, mas impregnada de superstições correntes na época: acreditavam em misteriosas forças sobre-humanas, como seriam duendes, demônios íncubos e súcubos, bruxas, que apareciam aos homens como se tivessem seu habitat nos ares, nas águas, nas terras de pântano ou desertas; trovões e relâmpagos eram atribuídos à ação de espíritos malignos ou infernais; as doenças eram tidas como causadas pelo Maligno.
Mais de uma vez na sua vida, Lutero acreditou que via e ouvia Satanás sob forma de cão ou outro animal, que o incomodava. Ao lado de estórias apavorantes, Lutero recebeu instrução religiosa muito válida; aprendeu a celebrar as grandes festas da Liturgia e a venerar os Santos, como os Apóstolos, São Martinho, São Jorge, Santa Ana... A religião que Martinho aprendeu até os doze anos de idade foi de temor mais do que de confiança, mais externa e formalista do que interior profunda.
Estudou humanidades, em Mansfeld, Magdeburgo e Eisenach. Em 1501 Martinho começou os estudos universitários em Erfurt (Turíngia), matriculando-se na Faculdade de Artes ou Filosofia.

Atormentado por dúvidas e remorsos, corria a confessar-se, acusando culpas que talvez não fossem tais senão em sua imaginação altamente excitada. Afinal o Deus tirânico que ele forjara, não era o Deus da Tradição cristã, mas sim o Deus sugerido pelo regime de educação severa e pela formação filosófica que recebera. Para tentar acalmar a sua alma, Lutero entregava-se à oração, ao trabalho, ao jejum e à penitência, mas isto tudo lhe parecia inútil, porque continuava a sentir em seu íntimo a tendência ao pecado ou movimentos de ira, ódio, concupiscência desregrada...; as obras ascéticas e virtuosas que praticava, de nada lhe serviam; sentia-se acusado interiormente; ele, que entrara no convento esperando conseguir paz de consciência e sentir Deus propício, via-se frustrado - o que muito o afligia.
Eis alguns testemunhos do próprio Lutero a respeito do seu estado de alma: "Quanto mais me esforçava por cultivara contrição, tanto maior era a força com que se levantavam as angústias da minha consciência; não me era possível aceitar a absolvição e outras consolações que os meus confessores me ministravam. Pois pensava comigo mesmo: Quem me garante que posso acreditar nessas consolações? Aconteceu logo casualmente que, falando com meu Mestre e lamentando-me com muitas lágrimas por sentir essas tentações que eu padecia com freqüência por causa da minha idade, ele me disse o seguinte: 'Filho, que fazes? Não sabes que o Senhor nos mandou ter esperança?' Esta única palavra me deu força para crer na absolvição" (WA 40,2. p. 412).

Em 1515 Lutero foi designado pelos Superiores da Ordem de S. Agostinho para lecionar as epístolas de São Paulo. Lendo e meditando tais textos, o frade foi descobrindo a solução do seu problema, que constava de dois princípios básicos:
  • O pecado deteriorou irremediavelmente a natureza humana, de modo que o homem é incapaz, por si, de praticar o bem, nem tem liberdade para isto. Precisa da graça para fazer obras boas; mas mesmo as obras boas dos Santos são más: "Mesmo praticando boas obras, pecamos (idcirco enim bene operando peccamus)" (MIA 56, 289). O pecado permanece sempre porque a concupiscência desregrada sempre permanece; o Batismo não a extingue;
  • Se somos sempre pecadores, não são nossas boas obras que nos salvam, mas a fé ou a confiança em Cristo. Se alguém tem fé, Deus deixa de imputar os seus pecados e lhe aplica os méritos de Cristo. Esta modalidade de justificação é por Lutero chamada "imputativa, forense, judiciária e não ontológica". Não há regeneração e santificação real da alma humana. O homem é simultaneamente justo e pecador; pecador na realidade e justo na aparência que Deus dele faz; justo porque tem fé em Cristo, porque não cumpre a lei e não está isento da concupiscência desregrada:
"De modo nenhum nos condena o fato de sermos pecadores, contanto que desejemos ser justos... Convém, pois, permanecer nos pecados e gemer por nos libertarmos deles na esperança da misericórdia de Deus" (WA 56, 266). Desenvolvendo tais concepções, Lutero chega a professar a predestinação ao inferno e rejeita a universalidade da vontade salvífica de Deus. Existem declarações do próprio Lutero que manifestam o seu estado de alma angustiado e desesperado na década de 1510: "Bastava o nome de Jesus Cristo nosso Salvador para que eu tremesse dos pés à cabeça" (WA 44, 716). "Tenho feito a experiência de que, quando alguém cai em tentação ou quando a morte o atemoriza ou corre algum perigo, vem-lhe a vontade de desesperar e fugir de Deus como do demônio" (WA 46, 660).

A temática das indulgências geralmente é mal entendida e relatada por historiadores profanos que descrevem a reforma luterana. A versão autêntica e objetiva do assunto é proposta em outro artigo. Aqui apresentaremos apenas os fatos como se deram na época de Lutero, influindo sobre as atitudes do frade agostiniano.
É comum dizer-se que Lutero concretizou tal protesto ao meio-dia de 31/10/1517, afixando às portas da Schlosskirche (igreja do castelo) de Wittenberg 95 teses sobre as indulgências e convidando todos os eruditos para uma disputa pública a respeito das mesmas. Na verdade, porém, esta versão é lendária. Ninguém mencionou tal façanha enquanto Lutero viveu. O primeiro a referí-ia foi Melancton em 1546; não se sabe donde tirou a notícia, nem ele cita fonte alguma; em 1517 Melancton não se achava em Wittenberg, mas sim em Tübingen; portanto não foi testemunha do alegado. De resto, sabe-se que Melancton nem sempre é exato quando narra pormenores da juventude de Lutero. Pode-se supor que, lendo as 95 teses e o convite de Lutero para um debate público, tenha Melancton imaginado que se tratava do anúncio de uma disputa acadêmica, anúncio que se fazia geralmente afixando proclamas às portas das igrejas.
O fato certo é que, aos 31/10/1517, Frei Martinho Lutero escreveu, indignado, uma carta de protesto ao arcebispo de Mogúncia, enviada com um exemplar de suas teses. A carta pedia que fosse retirada de circulação a Instructio e corrigido o modo de pregar as indulgências.

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